Catolicismo Thelêmico

por T Polyphilus


Eu acredito em uma Igreja Gnóstica e Católica de Luz, Vida, Amor e Liberdade,
a palavra de cuja lei é Thelema.(Liber XV)

A palavra "católica" significa a universalidade, ausência de preconceitos e inclusão. É nesse sentido que essa palavra é recitada pelos membros da Igreja Gnóstica Católica Thelêmica no momento da recitação do nosso credo. A palavra é, portanto, utilizada para indicar a “catolicidade” da Igreja, em vez de seu catolicismo. Porém o catolicismo da Igreja merece ser examinado. Embora a Ecclesia Gnostica Catholica em nenhum sentido represente uma forma de ortodoxia cristã, ele compartilha algumas características-chave com a Igreja de Roma, em comparação com as outras religiões do Velho Aeon.

O primeiro ponto do catolicismo para a nossa Igreja Gnóstica é a sua história enquanto instituição. A E.G.C. de Aleister Crowley surgiu a partir do G.K.K. (Gnostische Katholische Kirche) do O.H.O. Theodor Reuss, que havia sido consagrado como bispo por Gerard Encausse, conhecido como Papus. A Igreja Gnóstica de Papus surgiu a partir de um movimento eclesiástico marginal europeu, cujas raízes se encontrava em "bispos errantes" [N.T. sem vínculo com o papado], que se separaram da Igreja de Roma após o Concílio Vaticano Iº. Alguns têm incluído algumas Igrejas Católicas Antigas [N.T. ramificações européias que não estão em comunhão com o Vaticano, tal como o ICAB no Brasil] neste movimento organizacional. Mas na maioria dos casos, as conexões entre esses grupos são tênues e muitas vezes insignificantes em relação às suas respectivas filosofias e rituais.

Em um nível mais vital e pessoal, a questão da "sucessão apostólica" foi levantada como a cadeia que liga a EGC ao catolicismo romano. Algumas pesquisas mostram na correspondência de Crowley, a sua pretensão de ter recebido uma consagração episcopal legitima. Já a comprovação desta afirmação parece improvável, embora seja fácil supor que Reuss fosse um bispo consagrado de fato. O atual Patriarca da E.G.C. buscou uma sucessão em separado, de modo a obter poder para o reconhecimento retroativo de Crowley e seus descendentes. No entanto, a sucessão derivada do catolicismo romano é, na melhor das hipóteses, trivial para a integridade do EGC. A principal sucessão na Igreja Thelêmica encontra a sua fonte não em Jesus e seus apóstolos, mas no Sacerdote dos Príncipes Ankh-f-n-khonsu. (Isso não é um crucifixo no topo do super-altar!) Portanto, a transmissão da corrente iniciática a partir de Crowley dentro da OTO constitui a melhor base para uma sucessão Thelêmica. Assim a regularização do E.G.C. sob seu atual patriarca criou novos mecanismos para a manutenção desse sucessão, atrelando a elegibilidade para a ordenação e consagração ao status iniciático na Ordem.

É justo reconhecer o incrível sucesso da Igreja de Roma ao longo do último par de milênios. Talvez não exista exemplo melhor da promulgação de uma fórmula mágica por uma única instituição. A fórmula de Osíris foi transplantada para as nações, povos e culturas com notável eficiência, e não apenas pela força. Ainda que a conversão pela espada tenha desempenhado um papel ocasional na propagação do catolicismo romano, houve um fator inerente à sua prática religiosa que fez com que surpreendentemente essa religiosidade fosse capaz de criar raízes em novos solos. Esse é o fator, que o E.G.C. compartilha com o Antigo Aeon, é um conjunto de metódicas concessões para a fórmula do Aeon anterior.

A hagiolatria e o culto da Virgem Maria foram incorporados pela Igreja de Roma, pois eles forneciam uma "zona de conforto" para os indivíduos e as sociedades que ainda operavam com a fórmula de Isis. A hagiolatria (adoração dos santos) preencheu as necessidades de politeísmo e reverência aos antepassados que foram construídas na fórmula de Ísis. O culto à Maria preservou a chave a forma-deus do Aeon Anterior, embora em um papel distorcido como subsidiária ao Jesus-Osiris.

Como o Manifesto de Benjamin Crowe explica:
A predominância da Mãe (Aeon de Isis) e do Pai (Aeon de Osíris) são do passado. Muitas pessoas não têm compreendido completamente essas fórmulas, e eles ainda são válidos em suas esferas limitadas; mas os Mestres decidiram que chegou o momento para a administração dos sacramentos do Aeon de Horus, para aqueles capazes de compreensão.

A E.G.C. faz concessões ao Aeon de Osíris, assim como a Igreja de Roma fez com o Aeon de Isis. Várias características da Missa Gnóstica podem ser vistas como concessões à velha fórmula. Assim, aqueles que "ainda não cumpriram" o programa de Osíris possuem um porto seguro a partir do qual eles podem sentir as energias do Novo Aeon.

Um conjunto de concessões para a fórmula do Deus Sacrificado consiste na proliferação de imagens funerária na Missa As questões do sacerdote que se ergue e retorna ao túmulo, o Super - Altar é proporcional aos sarcófagos do antigo Egito, e a Estela é uma tábua funerária. A Missa leva assim vantagem do fato de que a cultura de Osíris tem treinado as pessoas a associar sentimentos religiosos com questões como morte e sepultamento.

Outra concessão importante é a exclusão das mulheres da lista de santos. Parece estranho que este critério sexista deve ser aplicado no EGC Thelêmica quando este não era um fator na canonização cristã. Mas uma inspeção mais minuciosa mostra que os santos são incluídos para criar uma história e uma personalização do passado. Portanto, os santos são a ocasião ideal para introduzir uma concessão desse tipo, uma vez que a sua função é a retrospecção. É esperado que a Igreja Católica de qualquer Aeon baseie sua lista de santos na fórmula do Aeon anterior.

Como ritual central, público e privado, da O.T.O, a Missa Gnóstica possui duas funções institucionais. Como um ritual público, a missa é um instrumento para promulgar a Lei de Thelema. Como um ritual privado, a Missa esboça os principais segredos da Ordem, especialmente incluindo a do Nono Grau, que é tradicionalmente considerado o supremo segredo da magia sexual.

É evidente a partir da natureza "mista" do Santuário da Gnose que tanto os homens como as mulheres podem utilizar o segredo do IX °. Na Missa Gnóstica, no entanto, parece que o Sacerdote, e não a Sacerdotisa, é colocado no papel do magista sexual. Os outros oficiais são subsidiários do Sacerdote ("sendo eles como se fosse parte do próprio Sacerdote"), e é o sacerdote que serve como um modelo para a comunicação para a congregação. A omissão de santas pode também refletir a prioridade dada ao Sacerdote no ritual. Devemos então considerar algumas possibilidades para essa limitação.

Uma razão que brota rapidamente à mente é que Crowley era do sexo masculino, e, portanto, interessado apenas em ou, capaz de, escrever o ritual a partir dessa perspectiva. A existência de dois dos outros rituais de Crowley mostra que esta explicação seja descartada. Liber LXVI é um ritual de magia sexual que envolve um operador de macho com uma fêmea "altar", mas "a Sacerdotisa procurará outro altar" para o seu próprio funcionamento, de acordo com o versículo 39. Ritual Supremo encontrado em "dois fragmentos de Ritual" em O Equinócio I: 10 entrega as rédeas a mulher. Ela dirige a cerimônia através de interrogatório e de comando, e o homem se senta sobre o altar em seu serviço.

O outro motivo para a primazia do Sacerdote pode ser consciente de concessão com a fórmula do Velho Aeon. Se o Segredo é igualmente aplicável por homens e mulheres, então não importa se, para efeitos de ilustração, o sacerdote ou a sacerdotisa o aplica. Mulheres e homens comungam em condições de igualdade, afirmando, assim, a equanimidade da nova fórmula com relação ao sexo. Mas a atribuição do Sacerdote para dirigir a missa reflete a velha fórmula como um caso especial mais acessível do novo. A estranha priorização do Sacerdote é uma concessão deliberada do ritual para equilibrar as funções públicas e privadas da Missa

Todo homem e toda mulher é uma estrela (AL I: 3)

Artigo Original:

Porque Thelema é Foda

BY IAO131, TRANSLATED BY PSILAX
Note: The original essay, ‘Why Thelema Kicks Ass’, can be found in the original English in Fresh Fever From the Skies and online.

Uma questão que eu tenho ouvido de amigos e que eu frequentemente pergunto para mim mesmo é, “Por que Thelema?”, Por que não identificar-se com quaisquer outras religiões e filosofias? Eu quero explicar porque eu acredito no poder de Thelema como uma regra de vida e consequentemente por que eu acredito que Thelema continuará crescendo.


1. Faça o Que Tu Queres
O ponto mais fundamental é que nós temos uma certa Lei sob a qual tudo mais está submetido: Faça o que tu queres. É a simples sublimidade desta infraestrutura espiritual que diferencia Thelema das várias religiões New Age (ou espiritualistas) que são caracterizadas pela natureza amorfa e falaciosa de suas crenças assim como as religiões do Velho Aeon que são caracterizadas por seus rígidos dogmatismo e sectarismo. A Lei da Liberdade é de tão longo alcance que ele tem implicações em todas as facetas da vida incluindo metafísica (como uma filosofia), ética (como um modo de vida) e teologia (como uma religião), mas é tão elegante que pode ser resumida em uma única palavra, Thelema.


2. Tolerância
A fundamental Lei de Thelema é “Faça o que tu queres” que é uma exortação radical para cada indivíduo explorar e expressar sua verdadeira natureza seja ela qual for. Fundamentalmente, nós como Thelemitas defendemos o direito de todos serem o que eles são. Isto envolve uma revolucionária forma de tolerância ou aceitação da diversidade. Thelema em si mesma é parcialmente o resultado de um sincretismo de muitas religiões e filosofias. É dito no Livro da Lei, “Aum! Todas as palavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros, salvo apenas que eles compreendam um pouco”. Nós também podemos encontrar referências de ideias judias, cristãs, mulçumanas, egípcias, gregas, herméticas, budistas e hindus dentro do Livro da Lei em si mesmo, sem mencionar os outros Livros Sagrados e escritos por Aleister Crowley. Isto mostra a capacidade de Thelema de apreciar as verdades que são encontradas em diversas ideologias em todo o mundo e ao longo da história.
Nosso sincretismo eclético não é arbitrário, na medida em que tudo gira em torno do núcleo de “Faça o que tu queres”: fios são recolhidos de todos os cantos da existência humana para ser tecido em conjunto através da harmonia expressa na palavra da Lei que é Thelema. A aceitação tolerante de diferentes pontos de vista é o que distingue Thelema de virtualmente cada outra religião que tem aparecido na história humana. Isso pode ser visto muito explicitamente na declaração dos direitos do Homem em “Liber Oz”, onde está escrito: “O homem tem o direito de viver por sua própria lei – de viver da maneira como ele quer”.
Nós somos radicais em nossa aceitação dos outros como eles são, contudo eles podem pensar, falar ou agir, mas também podemos pegar armas contra o dogmatismo, preconceito e superstição que impedirão a plena expressão da liberdade da humanidade. Isto está encapsulado em uma citação onde Crowley escreve: “Cada Estrela tem sua própria natureza, que é “Certa” para ela. Não devemos ser missionários vestidos com os padrões de ideais e moral, e tais ideias rígidas. Nós fazemos nossa Vontade e deixamos que os outros façam a Vontade deles. Somos infinitamente tolerantes, livres da intolerância”.


3.  Religião Científica
Thelema é completamente contra superstição e dogmatismo que são obviamente uma parte de varias religiões e filosofias do passado. Não argumentamos sobre quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, qual cor de roupas cria mal karma num determinado dia, quantas vezes um mantra precisa ser repetido para agradar um deus, ou quais ações serão favoravelmente julgadas por um Deus Gasoso Todo Poderoso sentado nas nuvens.
Isto tem implicações em termos de ações (moralmente) e pensamentos (filosoficamente). Moralmente, nós dissemos, “Faça o que tu queres há de ser o todo da Lei”; isso coloca a responsabilidade nos indivíduos para encontrar o que é certo para eles sem referência a quaisquer ameaças teológicas da vergonha e da culpa do pecado, do fogo eterno do inferno da condenação, de uma resposta desfavorável de um deus, ou mesmo de ter uma reencarnação como um inseto. Filosoficamente, não afirmamos qualquer coisa que é flagrantemente contraditória com base no conhecimento da humanidade, especialmente em termos da ciência moderna. Há uma abundância de casos de pessoas que deliberadamente negam a evidência de coisas tão fundamentais como a evolução ou a teoria dos germes. Por exemplo, não é difícil encontrar exemplos na América de teologia velada sendo empurrado nas escolas sob o disfarce pseudocientífico de “Modelo de Inteligência”. Histórias de pessoas – inclusive crianças – que morreram porque seus pais não acreditavam na capacidade da assistência médica. Em contraste, Thelema é uma “religião científica” que fala com as vicissitudes da experiência humana que muitas vezes chamamos de “religião” ou “espiritualidade”, mantendo-se fiel ao progresso do conhecimento humano, que muitas vezes chamamos de “ciência”. A great article (ainda sem tradução para o português) foi recentemente escrito sobre como Aleister Crowley previu Thelema como uma religião científica que eu recomendo caso você se interesse em saber mais sobre este aspecto particular da Lei da Liberdade.
Além disso, Thelema é uma religião humanizada: colocamos a meta de nossa aspiração dentro de nós mesmos e aceitamos os outros como eles são. Como já escrevi em outro lugar: no Aeon de Isis, o foco foi a Natureza, no Aeon de Osíris o foco era Deus, e agora no Aeon de Hórus o foco é o Homem, o indivíduo. Nosso Objetivo é a expressão mais completa de nós mesmo na Verdadeira Vontade, o nosso Caminho é para a totalidade mais profunda de nós mesmos, e nossa Comunidade não está no Paraíso, nem em deuses ou semideuses, ou em algum plano do “Além”, mas sim os homens e mulheres aqui sobre a Terra. Este ideal está encapsulado na poderosa frase, “Não há deus senão o homem”.


4. Abraçando o mundo ao mesmo tempo em que transcende o materialismo
Thelema abraça o mundo na medida em que nós não acreditamos que prazeres sensuais são demoníacos ou maus, e não acreditamos que existência ou encarnação ou consciência é algo para ser aniquilado ou transcendido. Esta atitude está encapsulada no Livro da Lei onde está escrito, “Seja forte, oh homem! Arda, usufrua todas as coisas de sentido e êxtase: não tema que qualquer Deus te negará por isso”. Como eu tenho dito em outro lugar: A Terra não é uma prisão, mas um templo onde o sacramento da vida pode ser promulgado; o corpo não é corrupto, mas um vaso próspero e pulsante para a expressão da Energia; sexo não é pecaminoso, mas um condutor misterioso de prazer e poder assim como uma imagem da natureza extática de toda Experiência.
Enquanto abraçamos o mundo, não caímos na armadilha do materialismo mesquinho. Isto é visto em nossa distinção entre querer – os nossos desejos conscientes, os desejos e caprichos que constantemente vêm e vão – e a Verdadeira Vontade. Nós abraçamos o mundo não para ter mais, ou maiores ou coisas brilhantes, mas como uma expressão de nossa natureza e a celebração da alegria da existência. Esta ideia foi tratada com mais profundidade num outro artigo recente, que pode ser lido caso você queira saber mais sobre este assunto em particular.


5. Sexualidade
De acordo com o que foi dito antes sobre tolerância e aceitação, Thelema especificamente abraça todas as formas de identidade, orientação, exploração e expressão sexual que está de acordo com a Vontade do indivíduo. Thelema é um modo de vida que explicitamente encoraja as pessoas a ser o que elas são sexualmente, e não para viver de acordo com algum padrão ditado pela religião ou sociedade. Não vemos qualquer particular identidade de gênero ou de orientação sexual como mais natural ou superior de qualquer modo. A melhor identidade é a que mais claramente e plenamente é uma expressão de sua natureza. Nós vemos isso encapsulado no Livro da Lei onde está escrito, “tomai vossa fartura e vontade de amor como vós quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes!”.
Crowley estava muito à frente de seu tempo, desta forma, por exemplo, ele escreveu no início do século XX, “A Besta 666 pela Sua autoridade ordena que todo homem e toda mulher, e cada indivíduo bi e homossexual, deve ser absolutamente livre para interpretar e comunicar seu Self por meio de qualquer prática sexual, direta ou indiretamente, racional e simbólica, fisiologicamente, eticamente, ou religiosamente aprovada ou não, contanto que todas as partes em qualquer ato estejam plenamente conscientes de todas as implicações e responsabilidades dos mesmos, e concordam plenamente com os mesmos”. Devemos nos lembrar de que – como um exemplo muito pequeno – mais de meio século depois, a Associação Americana de Psicologia parou de rotular a homossexualidade como uma forma de doença mental. Nós, como Thelemitas assumimos a bandeira da aceitação das pessoas como elas são não importa como elas podem optar por definirem-se e expressarem-se sexualmente.


6. Drogas
Thelemitas não evitam o uso de álcool e drogas com base em fundamentos filosóficos, morais ou teológicos. Thelema não tem proibições contra as drogas (ou nada, na verdade), desde que o que você esteja fazendo esteja de acordo com sua Vontade. Isso exige que as pessoas assumam a responsabilidade por suas escolhas. Eu frequentemente penso que vale dizer: “Faça o que tu queres… e arque com as consequências”, porque dizer: “Não há nenhuma lei além do Faze o que tu queres” não dá nenhuma forma de te absolver das consequências de sua ação; a lei de Thelema de nenhum modo revoga a lei de causa e efeito. O abuso de uma substância pode levar ao vício, o mau uso de uma substância pode levar a um desequilíbrio mental, e o uso consciente de uma substância pode levar a saltos imensos em autoexploração e autocompreensão. Cabe a cada um se informar sobre o uso de drogas e fazê-lo de modo responsável com a intenção de encontrar, explorar e expressar suas verdadeiras naturezas.
Numa época em que o uso de drogas psicodélicas só foi realmente explorado pelo seu potencial terapêutico nos últimos 5-10 anos, esta é também uma abordagem radical para as drogas. Temos o próprio vício de Crowley, a história do excesso e abuso de drogas, como pode ser visto estereotipado no final dos anos 60 e, possivelmente, as nossas próprias experiências e daqueles que nos rodeiam para nos alertar sobre o abuso de drogas. Por outro lado, temos sucessos próprios de Crowley, uma longa história de sucesso da experimentação com drogas, bem como nossas próprias experiências e daqueles que nos rodeiam para nos lembrar do potencial distinto do uso de drogas em harmonia com nossas Vontades. Clique aqui para ler mais sobre a abordagem de Thelema em relação as drogas.


7. Aleister Crowley
Eu acredito que Aleister Crowley é exatamente o profeta que nós precisamos nesta época e dias por uma razão fundamental: ele era um ser humano. Ele era um gênio, mas ele era um ser humano (apesar de suas tentativas em ser lembrado como um mito solar!). Crowley extrapolou os limites em praticamente todas as categorias de vida e para que pudéssemos admirá-lo desse maneira, mas também vemos coisas que nos desafiam. Crowley jogou com praticamente todos os tabus que pudesse encontrar e, dessa forma, ele nos desafia a enfrentar nossos próprios demônios e encontrar nossas próprias crenças sobre como devemos viver. Nossa reação à Crowley pode ser visto como um microcosmo de nossa reação a tabus em geral. Esta é uma tarefa importante, em que cada indivíduo pode se envolver: o que Crowley fez ofende particularmente nossos sentimentos? Em quais coisas ele foi “longe demais” ou “demasiado”, e – mais importante – examinar por que você acredita que ele foi longe demais. Desta forma, ao estudar a nossa reação ao profeta de Thelema que podemos aprender mais sobre os nossos próprios pontos cegos, limites e fronteiras.
O comportamento às vezes ultrajante de Crowley também nos lembra de que não devemos o imitar de qualquer maneira; que nós devemos encontrar nosso próprio caminho. É sobre isso que Thelema trata. Thelemitas estão unidos em uma busca mútua para encontrar nossos Eus. Não estamos todos tentando ser Crowley como cristãos tentam ser como Cristo ou budistas como Buda; todos nós estamos tentando ser quem realmente somos e é isso o que nos diferencia.


8.  Alegrai-vos!
Num documento que eu acredito que cada Thelemita deveria ler por sua clareza e contundência, Crowley escreveu que um de nossos deveres é “Alegrai-vos!” Thelema é uma religião de alegria e beleza. Humor é nossa armadura e os risos a nossa arma. Já não olhamos para a solenidade e autoanulação, como sinônimos de espiritualidade. Thelema é uma lei da liberdade que possui as chaves para destravar o potencial inato de cada indivíduo, para nos libertar do fardo de tristeza e medo, e nos permitirmos sermos nós mesmos e nos alegrarmos nisso. Como diz o Livro da Lei: “Lembrar todos vós que a existência é pura alegria”. E com este conhecimento, podemos conscientemente e voluntariamente nos engajar nesse último sacramento que conhecemos como existência. Por isso, digo com Crowley: “Olhe, irmão, nós somos livres! Alegre-se comigo, irmã, não há nenhuma lei além do Faça o que tu queres!”.

Link Original: http://iao131.com/essays/translations/porque-thelema-e-foda/

Top 10 Mitos sobre a Verdadeira Vontade

O conceito de “Verdadeira Vontade”, ou simplesmente “Vontade”, é fundamental para a Lei de Thelema desde que nosso princípio central é “Faça o que tu queres será o todo da Lei” (AL I:40), juntamente com “Tu não tens direitos senão fazer a tua Vontade” (AL I:42) e “Não há lei além de faze o que tu queres” (AL III:60). Thelema, apesar de tudo, significa “Vontade”.

Por ser Vontade um conceito central em Thelema há muitos equívocos sobre isso que limitam nosso entendimento assim como limitam nosso potencial para realizar e manifestar as nossas Vontades. Muitos desses mitos e equívocos estão altamente correlacionados, mas eles também são diferentes em sua ênfase e abordagem. A lista não pretende ser exaustiva ou completa, mas espero que possa levar a uma reflexão e clareza sobre a noção de Vontade. Mais fundamentalmente essa é uma lista curta destinada a desafiar alguns equívocos comuns sobre a Vontade, a fim de que possamos conhecer e realizar nossas Vontades mais livremente e com alegria.

1) A Verdadeira Vontade é encontrada num determinado momento.

O primeiro mito é que a Verdadeira Vontade é descoberta durante um evento distinto, num certo ponto da história. Isso significa que você não sabe qual é a sua Vontade, mas que num futuro você saberá, ao ter algum insight ou experiência, você de repente conhecerá sua Vontade. Em contraste, Crowley nos informou que “A Vontade é apenas o aspecto dinâmico do Eu…” (Liber II). Neste sentido, a Vontade é apenas a expressão de nossa Natureza. Entretanto de uma maneira pobre e incompleta nossa Natureza não pode deixar de se expressar de alguma maneira, o que quer dizer que: nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto, mas poderíamos fazer sempre um pouco “melhor”, no sentido de fazê-la mais completamente e com mais consciência. Mesmo se temos uma visão súbita ou que muda completamente a Natureza de nossas Vontades, isso não significa que esse entendimento não precisará mudar ou ser revisado no futuro.

2) A Verdadeira Vontade é algo para ser encontrado num futuro distante.

Relacionada ao primeiro mito é a noção de que Verdadeira Vontade não pode ser encontrada no presente, mas em algum ponto do futuro. Ou seja, se pensa “Eu não sei qual minha Vontade agora, mas espero que eu saiba no futuro”. Agora, é perfeitamente razoável acreditar que o conhecimento e entendimento da Vontade podem aumentar no futuro, mas, novamente, nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto. Isto é, a Vontade não é “encontrada”, mas nossa consciência e entendimento dela podem melhorar. Visualizando a Vontade como algo que se encontra no futuro, exclui o nosso potencial para fazermos nosso melhor para fazer nossa Vontade no momento presente. Podemos lamentar as nossas circunstâncias, acreditando que tudo ficaria bem se “conhecêssemos nossas Vontades”, ao invés de trabalhar em nós mesmos no momento presente para nos tornar mais conscientes e alegres com o que já está acontecendo. Isto é, nossos próprios conceitos sobre o que é Vontade nos impedem de ver o que já está aqui: todos nós somos estrelas (AL I:3) e Hadit, a chama de nossas Vontades, está sempre no centro de nosso Ser (AL II:6). É nosso trabalho ou dever descobrir como trabalhar com nós mesmos e nosso ambiente a fim de tornar a Verdade dentro de nós mais manifesta do que inerente.

3) Você está fazendo sua Vontade ou você não está fazendo.

A linguagem usada ao redor da Vontade é frequentemente “digital” no senso em que falamos sobre isso em “on ou off” (ligar ou desligar). Eu acredito que é mais efetivo e adequado pensar em Vontade em termos “análogos”, ou seja, que estamos fazendo nossa Vontade até certo ponto. A linguagem de “Verdadeira Vontade” implica esse tipo de dicotomia digital de verdadeiro ou falso. Por outro lado, a ideia de “Vontade Pura” é uma questão de graus. A totalidade “pura” da Vontade é 100% Vontade com nenhuma mistura ou contaminantes, assim como um suco puro é 100% suco – não há qualquer conotação moral. Podemos (por questão de explicação) dizer que podemos não estar fazendo 100% de nossa Vontade, mas podemos estar fazendo 30% ou 80% de nosso potencial até o momento. Isso coloca a responsabilidade em nós mesmos para tentar aprovar nossa Vontade ao máximo, na forma mais “pura” possível. Isso significa também que nós não precisamos pensar nos outros em termos deles estarem ou não fazendo suas Vontades; ao contrário, todos estão fazendo suas Vontade até certo ponto ou outro, e tudo o que temos de fazer é tentar nos esforçar intencionalmente para chegarmos ao ideal de Vontade 100%.

4) Verdadeira Vontade é uma coisa única e imutável.

A linguagem usada ao redor de Vontade implica que Vontade é algo único, por exemplo, “é minha Vontade ser um médico”. Na verdade, a ideia de Vontade ser certa carreira em particular é um dos mais comuns exemplos de equívocos. Um exemplo é Crowley falando neste sentido quando ele escreve: “virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor.” (De Lege Libellum). O erro está em pegar a ideia de “Vontade = a carreira certa” literalmente do que metaforicamente. Ou seja, uma carreira é uma metáfora para o que você faz com a sua vida, acreditando ser adequado para as suas tendências, talentos e aspirações. Obviamente a Vontade não está confinada a uma simples carreira – especialmente nos dias de hoje em que a maioria das pessoas tem várias carreiras ao longo da vida – como aparentou ser a vida do próprio Crowley. Não seria correto dizer que era a Vontade de Crowley ser poeta porque iria negligenciar que ele era um mago, não seria correto dizer que foi a Vontade de Crowley ser um alpinista porque iria negligenciar que ele era um jogador de xadrez, etc. Na verdade, a Vontade é – como já mencionado – “o aspecto dinâmico do Self…” (Liber II). E dinâmico, ou seja, em constante movimento. Crowley reforça isso quando ele escreve que a Verdadeira natureza do Eu é mover-se continuamente, deve ser entendido não como algo estático, mas como dinâmico, e não como um substantivo, mas como um verbo” (Dever). Esta natureza dinâmica da Vontade é ainda implícita na linguagem que a descreve como “Movimento” como quando Crowley escreve que a Vontade é “o verdadeiro Movimento do teu ser mais íntimo” (Liber Aleph, capítulo 9).

5) Verdadeira Vontade pode ser encapsulada completamente em uma frase.

Conectada com os equívocos anteriores é a noção que Vontade pode ser completamente encapsulada numa frase. Uma vez que a Vontade é dinâmica, a sua natureza é de “Ir”, nenhuma frase pode sempre encapsulá-la completamente. Existem, certamente, benefícios por se encapsular a vontade numa frase como tendo um padrão conscientemente articulado pelo qual se pode julgar se um determinado curso de ação é expressivo ou impeditivo da Vontade. Por exemplo, pode-se formular a Vontade como “É minha Vontade que meu corpo seja saudável”, que pode atuar como um padrão pelo qual você vai determinar que comer junk food (comida que não é saudável) não faz parte da sua vontade (para todos os efeitos práticos). Dito isto, deve haver um entendimento de que a Vontade está, em ultima instancia, além da articulação verbal. Como se diz: “Também razão é uma mentira, pois há um fator infinito e desconhecido; & todas as suas palavras são meandros” (AL II:32). A Vontade é suprarracional na medida em que não pode ser descrita com precisão ou completamente descrita pela faculdade da razão e do pensamento. Como Crowley disse: “[A mente] deve ser uma máquina perfeita, um aparelho para representar o universo de forma precisa e imparcial ao seu mestre. O Eu, a sua Vontade, e sua apreensão, deve estar totalmente além dela.” (Novo Comentário para AL II:28). A mente com seus pensamentos e razão é simplesmente uma parte do seu ser, a vontade é o Verbo de todo o nosso ser, então, naturalmente, uma pequena parte não pode inteiramente compreender e abranger o Todo.

6) Verdadeira Vontade requer uma experiência mística.

Em conexão com o Mito #2, existe a tendência em acreditar que o conhecimento da Vontade virá apenas com algum tipo de experiência mística, se o acredita (ou concebe) como o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, iluminação, a travessia do Abismo, ou qualquer outra coisa. Embora possamos dizer que o Conhecimento e Conversação (ou outras experiências místicas) podem ajudar a esclarecer a Vontade ou se livrar de seus obstáculos, tais como o egoísmo excessivo, a Vontade pode ser tanto sempre presente ou trabalhada até certo ponto. A noção de que só pode se conhecer a Vontade através de experiências místicas negligencia o fato de que há muito modos simples, diretos e até mesmo “mundanos” nos quais podemos trabalhar em nós mesmos para fazer melhor e mais completamente a nossa Vontade. Por exemplo, alguém pode perceber que certo relacionamento não está mais funcionando, então ele se agita, sofre, se amargura e ressente. Pode-se então perceber que a fim de realizar a Vontade mais plenamente, é preciso terminar o relacionamento. “Oh amante, se tu queres, partes!” (AL I:41). Há muitas coisas em nossas vidas que sabemos, em algum nível, que podem ser alterados para decretar mais plenamente nossas Vontades, como se livrar de certos hábitos que já são conhecidos por serem problemáticos. Se isto é tão simples como “assistir menos televisão”, ou concreto como “largar os opiáceos”, ou mais sutil como “ser menos ligado às expectativas”, ou mais geral como “tornar-se mais consciente e menos reativo emocionalmente”, existem muitas maneiras de trabalhar em nós mesmos que estão disponíveis para todos, sem a menor experiência ou inclinação para experiências místicas. Ainda mais preocupante é “acreditar que apenas alguma experiência mística no futuro” pode ser usada como uma desculpa ou um “desvio espiritual” para evitar lidar com estas questões mais “mundanas”, como as emoções não processadas ou hábitos indesejáveis.

7) Todos devem alcançar a Vontade.

A crença geral difundida entre Thelemitas é que há certo tipo de “verdadeiro Thelemita” ou “Thelemita ideal”. Outro ensaio explica mais detalhadamente por que isso é um equívoco, mas, em suma ele depende de ter preconceitos sobre o que é “certo” e “errado” para a Vontade dos outros, quando toda a fundação de Thelema repousa sobre a noção de que cada indivíduo é único. Uma manifestação desse preconceito sobre o que é “certo” é a noção de que todos devem estar se esforçando para “atingir”, significando alcançar algum tipo de gnose mística ou iluminação. Na verdade, o Livro da Lei diz na mesma linha que seu lema central: “Quem nos chama Thelemitas não cometerá erro, se ele apenas observar bem de perto a palavra. Pois dentro dela existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (AL I:40). Isto é explicado em A Visão e A Voz quando se diz: “O homem da terra é o devoto. O amante dá a sua vida para trabalhar entre os homens. O eremita caminha solitário dando aos homens apenas a sua luz.”. Não é inerentemente a Vontade de todos se tornarem um eremita e alcançar as alturas da iluminação espiritual. – Pode muito bem ser a vontade de alguém viver a sua vida sem se preocupar com essas coisas. Mais claramente o Livro da Lei diz que “a lei é para todos” (AL I:34). Essa insistência de que todos têm que “atingir” pode facilmente se transformar em forma de auto-superioridade espiritual que é contrário ao espírito da liberdade que permeia a lei.

8) Sua Vontade não tem nada a ver com as outras pessoas.

É típico conceber a Vontade como algo inerente ao individuo e que não tem nada a ver com as outras pessoas e suas circunstâncias. Eu acredito que isto é simplesmente uma falha de linguagem usada para descrever Vontade do que uma realidade. Nós todos somos incorporados em uma interconexão complexa de forças – somos todos estrelas na teia do Espaço Infinito – e ambos afetam e são afetados por tudo que nos rodeia: “Suas ações afetam não apenas o que ele chamou a si mesmo, mas também todo o universo.” (Liber Librae). Vendo como a Vontade é o aspecto dinâmico da nossa natureza, deve inerentemente se adaptar à situação ou circunstância em que se encontra. Crowley fala isso quando ele escreve que a vontade é “a nossa verdadeira órbita, como demarcada pela natureza de nossa posição, a lei do nosso crescimento, o impulso de nossas experiências passadas.” (Introdução ao Liber AL). A nossa “posição” muda constantemente e a Vontade é “marcada” em parte pela natureza de nossa posição. A nossa “posição” envolve o meio ambiente e as pessoas ao nosso redor. Praticamente qualquer tipo de articulação da Vontade – por mais que provisória ou experimental – deve incluir o meio ambiente ou outras pessoas de alguma forma. Para dizer “é minha vontade comer menos” envolve a comida em seu ambiente, dizendo “é minha vontade ser gentil” envolve a sua bondade para com outras pessoas, dizer “é minha vontade promulgar a Lei de Thelema” envolve aqueles a quem você irá promulgar etc. Mesmo dizer “é minha Vontade alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião” necessariamente requer que você crie adequadamente o ambiente propício para atingir esse objetivo. Na verdade algumas das melhores lições vêm de estar em sintonia com o seu ambiente e aqueles ao seu redor ao invés de ignorar a sua importância ou impacto. Se você estiver recebendo mensagens constantes na forma de dificuldades desnecessárias de quaisquer naturezas, talvez seja uma lição para alterar a forma como você está se adaptando ao seu ambiente, em vez de insistir mais fortemente no curso de seu caminho e apenas intimidando aos outros.

9) Verdadeira Vontade significa que você estará livre do sofrimento.

A ideia de Verdadeira Vontade, muitas vezes leva a noções utópicas e irrealistas quanto ao que Vontade vai realmente parecer. A ideia de que fazer a Vontade liberta do sofrimento é irrealista em vários níveis. Em primeiro lugar, o sofrimento é inerente à existência de alguma forma ou de outra, na medida em que todos nós ficamos doentes, sofremos perdas, envelhecemos, sofremos prejuízos e morremos. Nós sempre vamos encontrar algum tipo de resistência ou dificuldade em nossas vidas. Isso não deve ser visto como uma espécie de marca de fracasso em sua tentativa de fazer a tua Vontade, mas sim, essas ocorrências inevitáveis de sofrimento, resistência e dificuldade são os meios pelos quais nós aprendemos e crescemos. Como se diz, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz… pois quando maior for tua prova, maior o teu triunfo” (Liber Librae). Essa ideia de que “fazer a sua Vontade = sem sofrimento” também depende da noção de que a Vontade seja “on” ou “off”, como mencionado no Mito n°3: mesmo que estejamos no modo de “Vontade 100%” por um tempo, todos nós, inevitavelmente, erramos, encontramos dificuldades imprevistas, ou simplesmente “escorregamos” e não fazemos o melhor que podemos. Além disso, o próprio desejo de ser livre do sofrimento é, em certo sentido, uma ideia do Antigo Aeon: Thelemitas não procuram transcender o mundo material, se isentar do Samsara, ou até mesmo evitar o sofrimento. Reconhecemos a realidade como ela é, sem insistir em estar de acordo com os nossos ideais a priori assim como ao “como o mundo deveria ser”. Nós aceitamos o sofrimento e as dificuldades da vida como “molho picante ao prato do Prazer” (Liber Aleph, capítulo 59). Eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria Vontade significa que você vai estar livre de uma grande dose de sofrimento desnecessário. Uma grande parte do nosso sofrimento não é de fato inerente ou necessária, mas nós, através dos nossos vários hábitos e pobres equívocos, nos sujeitamos à dificuldade que pode ser evitada em grande parte ou totalmente, se nos tornarmos mais conscientes e em sintonia com as nossas Vontades.

10) Verdadeira Vontade significa estar livre de conflito.

Conectada ao mito anterior é a noção de que fazer a própria Verdadeira Vontade significa que estará livre de todos os conflitos. Isso geralmente é baseado ao fato de que o Livro da Lei diz: “tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faça isso e nenhum outro dirá não” (AL I:42 – 43) e Crowley escreveu que “[a lei] parece implicar uma teoria que, se cada homem e cada mulher fizesse a sua Vontade – a Verdadeira Vontade – não haveria conflito” (Liber II). Realisticamente, sempre haverá pessoas que “dizem não”, independentemente do grau em que você está fazendo a sua Vontade, e sempre será “conflitante”. A questão real vem de uma compreensão do “confronto”. Se confronto significa conflito interpessoal na forma de desacordo ou argumento, nunca haverá um fim a este a menos que todos nós nos tornamos autômatos, irrefletidos – o qual certamente não é o objetivo da Lei da Liberdade. Semelhante ao mito anterior, eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria vontade significa que você estará livre de uma grande quantidade de conflitos desnecessários. Grande parte do nosso conflito com os outros dependem da nossa insistência em saber o que é “certo” para os outros, as nossas próprias expectativas e normas impostas aos outros, insistindo em manter uma posição baseada numa autoestima do ego e identidade que está amarrada com a nossa posição e muitos outros erros que se afastam naturalmente na medida em que nos concentramos em nossa Vontade ao invés de discutir. Talvez essa seja a razão para sermos ensinados a “não discutir, não converter; não falar em demasia” (AL III:42). Novamente é um tipo de fantasia do Velho Aeon o mundo ou a vida de alguém ser livre de conflitos. Eu acredito que a aceitação e o envolvimento com o conflito é uma marca distintiva de uma pessoa que tem uma mentalidade do Novo Aeon, ao invés do Velho Aeon. Como Crowley escreveu, “O combate estimula a energia viril ou criativa” (Dever). Mesmo as formas mais triviais e mundanas de conflito, como equipes rivais em esportes ou pontos de vistas opostos em um debate, permitem que a diversão do jogo esteja em primeiro lugar. Ao invés de procurar ser livre de conflitos, podemos fazer melhor examinando os conflitos em nossas vidas e determinando até que ponto eles são o resultado da nossa incapacidade de concretizar plenamente a nossa Vontade, a fim de viver mais plenamente e com alegria.

O que todos esses 10 mitos implicam é uma visão da Vontade como algo sempre presente até certo ponto, sempre dinâmico e mutável, sempre capaz de ser trabalhado, e, trabalhado independentemente de ter experiências místicas ou não, embutido dentro do contexto do nosso ambiente e outros indivíduos, e aceitar o sofrimento e o conflito como coisas inerentes a existência, coisas mais para serem trabalhadas do que evitadas. Esta lista não é exaustiva de qualquer maneira, e há, obviamente, muitas nuances para a ideia de Vontade e muitas outras maneiras de compreendê-la. No entanto, espero que desafiar algumas dessas ideias como mitos ou equívocos possa libertar o nosso pensamento a fim de tornar-se consciente do grande potencial em cada momento de decretar e regozijar em nossas Vontades.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Texto original: IAO131
Tradução de Psilax
http://iao131.com/essays/translations/top-10-mitos-sobre-verdadeira-vontade/

O que é Thelema?

por T Polyphilus
Originalmente apresentado em 29 de março de 2008 e.v.
No VII Simpósio Thelemico na Loja Sekhet-Maat, Portland, Oregon

Afirmo que Thelema é antes de tudo a fórmula de desenvolvimento espiritual mais adequada às nossas circunstâncias culturais e históricas. Ela inclui uma filosofia que foi obtida por experiências que transcendem à razão; ela fornece uma base para a sagrada observância, que sincretiza os melhores elementos das chamadas "religiões do mundo." A meu ver, Thelema é mais cristão do que o cristianismo, e mais satânico do que satanismo.

O status de profeta delegado à Aleister Crowley é uma característica integrante de Thelema, e eu não tenho nenhum interesse em "resgatar" o movimento Thelemico a partir de sua figura fundadora, ou a intenção de ir "além" da sua influência. "Bênção e adoração ao profeta da adorável estrela!". Ao mesmo tempo, as virtudes do Profeta incluem a obviedade de suas deficiências: ele era um deus da mesma maneira que qualquer homem poderia ser. Thelema também teve outros importantes antecedentes literários e filosóficos na obra de figuras como Agostinho de Hipona, Francesco Colonna, Francois Rabelais, Sir Francis Dashwood, Friedrich Nietzsche e Anna Kingsford.

Desde que Thelema passou a se envolver no progresso iniciático de indivíduos, através de tarefas de realização espiritual, passaram a existir diferenças necessárias entre as interpretações exotéricas (de não-adeptos e aspirantes) por um lado e as perspectivas esotéricos (obtidas pela experiência iniciatica) de outro. No entanto, eu estou disposto a me ater a um conjunto breve de ensinamentos que considero como aquilo que é indispensável para Thelema, e que servem para torná-la tão distinta enquanto matriz religioso-filosófica. O primeiro destes é a importância da iniciação propriamente dita.

Crowley se refere ao evento de iniciação mais importante como "Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião", e ele identificou-o como o "próximo passo" para a humanidade. Esta realização envolve uma entidade que é, presumivelmente, única para cada individuo - o seu "gênio pessoal", um espírito que atende ao caráter mais fundamental do indivíduo ou Verdadeira Vontade. A frase "Conhecimento e Conversação" é uma tradução enganosa, e muitas vezes incompreendida. O “conversatio” Latina não significa diálogo ou discussão, mas sim um "modo de vida", associada especialmente com as ordens religiosas e os votos monásticos. Realização de "Conhecimento e Conversação" Assim, não é apenas um encontro com o "Deus do próprio universo pessoal", mas, na verdade, uma descoberta de conversão e do padrão idiossincrático de observância condizente com aquele ser que é definido por maior destino pessoal do aspirante.

Outra característica fundamental da doutrina Thelema é a síntese global. A este respeito, nós nos valemos de uma longa tradição que remonta à fusão Hermética clássica dos gregos com a sabedoria egípcia, o ideal Rosacruz de uma reforma geral para unir o Islã e o Cristianismo, e os esforços da Sociedade Teosófica para informar ocultismo europeu sobre o Budismo e outras tradições asiáticas. "Todas as palavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros, salvo apenas que eles entendem um pouco". Tal síntese não é um mero ecletismo impulsionado por gostos superficiais e apetites de indivíduos e grupos locais. Todo o conhecimento que nos foi legado deve ser testado contra e integrado com os símbolos fundamentais dos ensinamentos de Thelema. As qualidades cosmopolitas e a dialética de Thelema a colocam em contraponto com aquelas escolas que enfatizam a "pureza" ou autenticidade primordial de seus ensinamentos.

E por falar em dialética, um elemento-chave de Thelema é a sua sagrada meta-narrativa da história humana, sob a figura simbólica da precessão dos equinócios. De acordo com nossos ensinamentos, a idade atual do mundo ou Aeon começou em 1904, e ainda está encontrando a sua plena expressão. Estamos, portanto, no mundo pós-apocalíptico pela perspectiva do velho aeon, sustentando que a velha ordem foi destruída pelo fogo há um século, e que é nossa responsabilidade fazer se manifeste o Aeon da Criança Coroada e Conquistadora, para o qual a Lei de Thelema é o princípio e plano. Em nossa opinião, a história não é nem uma degeneração de um paraíso original, nem um progresso em direção à perfeição estática de uma Nova Jerusalém. Mas nós afirmamos a existência de mudança em níveis suficientemente profundos para impactar a condição espiritual da humanidade como um todo.

Sem supor que eu tenha esgotado os componentes mais importantes da doutrina Thelêmica, a última observação que eu quero deixar é sobre a ideia da Magia. Em contraste com a maioria dos sistemas filosóficos e religiosos contemporâneos, Thelema considera como positiva a Magia como tal. A definição de Crowley para Magick é "A arte e a ciência de causar alterações em conformidade com a vontade", o que combina com a ideia de Thelema, que é "vontade" em grego. A psicologia agostiniana coloca a vontade como um dos três poderes fundamentais da alma, e a identifica com o desejo. As teorias de Crowley também destacam o papel do "elo mágico", um conceito pioneiro no trabalho do mártir renascentista Giordano Bruno, que delineou a base sexual das forças mágicas. Assim Thelema, sob a ideia controversa de Magick, avança o valor principal do desejo disciplinado, e - de certa forma - a fundação sexual de toda atividade humana e sua realização.

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