Catolicismo Thelêmico

por T Polyphilus


Eu acredito em uma Igreja Gnóstica e Católica de Luz, Vida, Amor e Liberdade,
a palavra de cuja lei é Thelema.(Liber XV)

A palavra "católica" significa a universalidade, ausência de preconceitos e inclusão. É nesse sentido que essa palavra é recitada pelos membros da Igreja Gnóstica Católica Thelêmica no momento da recitação do nosso credo. A palavra é, portanto, utilizada para indicar a “catolicidade” da Igreja, em vez de seu catolicismo. Porém o catolicismo da Igreja merece ser examinado. Embora a Ecclesia Gnostica Catholica em nenhum sentido represente uma forma de ortodoxia cristã, ele compartilha algumas características-chave com a Igreja de Roma, em comparação com as outras religiões do Velho Aeon.

O primeiro ponto do catolicismo para a nossa Igreja Gnóstica é a sua história enquanto instituição. A E.G.C. de Aleister Crowley surgiu a partir do G.K.K. (Gnostische Katholische Kirche) do O.H.O. Theodor Reuss, que havia sido consagrado como bispo por Gerard Encausse, conhecido como Papus. A Igreja Gnóstica de Papus surgiu a partir de um movimento eclesiástico marginal europeu, cujas raízes se encontrava em "bispos errantes" [N.T. sem vínculo com o papado], que se separaram da Igreja de Roma após o Concílio Vaticano Iº. Alguns têm incluído algumas Igrejas Católicas Antigas [N.T. ramificações européias que não estão em comunhão com o Vaticano, tal como o ICAB no Brasil] neste movimento organizacional. Mas na maioria dos casos, as conexões entre esses grupos são tênues e muitas vezes insignificantes em relação às suas respectivas filosofias e rituais.

Em um nível mais vital e pessoal, a questão da "sucessão apostólica" foi levantada como a cadeia que liga a EGC ao catolicismo romano. Algumas pesquisas mostram na correspondência de Crowley, a sua pretensão de ter recebido uma consagração episcopal legitima. Já a comprovação desta afirmação parece improvável, embora seja fácil supor que Reuss fosse um bispo consagrado de fato. O atual Patriarca da E.G.C. buscou uma sucessão em separado, de modo a obter poder para o reconhecimento retroativo de Crowley e seus descendentes. No entanto, a sucessão derivada do catolicismo romano é, na melhor das hipóteses, trivial para a integridade do EGC. A principal sucessão na Igreja Thelêmica encontra a sua fonte não em Jesus e seus apóstolos, mas no Sacerdote dos Príncipes Ankh-f-n-khonsu. (Isso não é um crucifixo no topo do super-altar!) Portanto, a transmissão da corrente iniciática a partir de Crowley dentro da OTO constitui a melhor base para uma sucessão Thelêmica. Assim a regularização do E.G.C. sob seu atual patriarca criou novos mecanismos para a manutenção desse sucessão, atrelando a elegibilidade para a ordenação e consagração ao status iniciático na Ordem.

É justo reconhecer o incrível sucesso da Igreja de Roma ao longo do último par de milênios. Talvez não exista exemplo melhor da promulgação de uma fórmula mágica por uma única instituição. A fórmula de Osíris foi transplantada para as nações, povos e culturas com notável eficiência, e não apenas pela força. Ainda que a conversão pela espada tenha desempenhado um papel ocasional na propagação do catolicismo romano, houve um fator inerente à sua prática religiosa que fez com que surpreendentemente essa religiosidade fosse capaz de criar raízes em novos solos. Esse é o fator, que o E.G.C. compartilha com o Antigo Aeon, é um conjunto de metódicas concessões para a fórmula do Aeon anterior.

A hagiolatria e o culto da Virgem Maria foram incorporados pela Igreja de Roma, pois eles forneciam uma "zona de conforto" para os indivíduos e as sociedades que ainda operavam com a fórmula de Isis. A hagiolatria (adoração dos santos) preencheu as necessidades de politeísmo e reverência aos antepassados que foram construídas na fórmula de Ísis. O culto à Maria preservou a chave a forma-deus do Aeon Anterior, embora em um papel distorcido como subsidiária ao Jesus-Osiris.

Como o Manifesto de Benjamin Crowe explica:
A predominância da Mãe (Aeon de Isis) e do Pai (Aeon de Osíris) são do passado. Muitas pessoas não têm compreendido completamente essas fórmulas, e eles ainda são válidos em suas esferas limitadas; mas os Mestres decidiram que chegou o momento para a administração dos sacramentos do Aeon de Horus, para aqueles capazes de compreensão.

A E.G.C. faz concessões ao Aeon de Osíris, assim como a Igreja de Roma fez com o Aeon de Isis. Várias características da Missa Gnóstica podem ser vistas como concessões à velha fórmula. Assim, aqueles que "ainda não cumpriram" o programa de Osíris possuem um porto seguro a partir do qual eles podem sentir as energias do Novo Aeon.

Um conjunto de concessões para a fórmula do Deus Sacrificado consiste na proliferação de imagens funerária na Missa As questões do sacerdote que se ergue e retorna ao túmulo, o Super - Altar é proporcional aos sarcófagos do antigo Egito, e a Estela é uma tábua funerária. A Missa leva assim vantagem do fato de que a cultura de Osíris tem treinado as pessoas a associar sentimentos religiosos com questões como morte e sepultamento.

Outra concessão importante é a exclusão das mulheres da lista de santos. Parece estranho que este critério sexista deve ser aplicado no EGC Thelêmica quando este não era um fator na canonização cristã. Mas uma inspeção mais minuciosa mostra que os santos são incluídos para criar uma história e uma personalização do passado. Portanto, os santos são a ocasião ideal para introduzir uma concessão desse tipo, uma vez que a sua função é a retrospecção. É esperado que a Igreja Católica de qualquer Aeon baseie sua lista de santos na fórmula do Aeon anterior.

Como ritual central, público e privado, da O.T.O, a Missa Gnóstica possui duas funções institucionais. Como um ritual público, a missa é um instrumento para promulgar a Lei de Thelema. Como um ritual privado, a Missa esboça os principais segredos da Ordem, especialmente incluindo a do Nono Grau, que é tradicionalmente considerado o supremo segredo da magia sexual.

É evidente a partir da natureza "mista" do Santuário da Gnose que tanto os homens como as mulheres podem utilizar o segredo do IX °. Na Missa Gnóstica, no entanto, parece que o Sacerdote, e não a Sacerdotisa, é colocado no papel do magista sexual. Os outros oficiais são subsidiários do Sacerdote ("sendo eles como se fosse parte do próprio Sacerdote"), e é o sacerdote que serve como um modelo para a comunicação para a congregação. A omissão de santas pode também refletir a prioridade dada ao Sacerdote no ritual. Devemos então considerar algumas possibilidades para essa limitação.

Uma razão que brota rapidamente à mente é que Crowley era do sexo masculino, e, portanto, interessado apenas em ou, capaz de, escrever o ritual a partir dessa perspectiva. A existência de dois dos outros rituais de Crowley mostra que esta explicação seja descartada. Liber LXVI é um ritual de magia sexual que envolve um operador de macho com uma fêmea "altar", mas "a Sacerdotisa procurará outro altar" para o seu próprio funcionamento, de acordo com o versículo 39. Ritual Supremo encontrado em "dois fragmentos de Ritual" em O Equinócio I: 10 entrega as rédeas a mulher. Ela dirige a cerimônia através de interrogatório e de comando, e o homem se senta sobre o altar em seu serviço.

O outro motivo para a primazia do Sacerdote pode ser consciente de concessão com a fórmula do Velho Aeon. Se o Segredo é igualmente aplicável por homens e mulheres, então não importa se, para efeitos de ilustração, o sacerdote ou a sacerdotisa o aplica. Mulheres e homens comungam em condições de igualdade, afirmando, assim, a equanimidade da nova fórmula com relação ao sexo. Mas a atribuição do Sacerdote para dirigir a missa reflete a velha fórmula como um caso especial mais acessível do novo. A estranha priorização do Sacerdote é uma concessão deliberada do ritual para equilibrar as funções públicas e privadas da Missa

Todo homem e toda mulher é uma estrela (AL I: 3)

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